14.6.12

É dura a vida de cliente!

                              Eu fui comprar um pijama de flanela para presentear minha filha, justo no dia dos namorados. A loja estava lotada. Enquanto aguardava o atendimento fui “dando uma olhadinha” em algumas peças. De repente, uma ágil vendedora saltou sorridente para o soutien na minha frente:
“Esse é lindo”, olhando para os meus seios, com conhecimento de causa, prosseguiu: “Para quem tem pouco seio eu tenho esse modelo com bolha”.
“Bolha”?
“Sim, vou buscar. Meu nome é Pati.”
                              Eu, que estava querendo apenas comprar uns pijaminhas básicos, acabei aguardando a Pati  e um soutien com bolha .
Relaxei. Como seria uma bolha no peito? Lembrei de quando amamentava meus filhos. Deixa prá lá, não era nada disso.
                              O soutien tem enchimentos que levantam o baixo astral. A Pati me disse que eu arrasaria com ele. Pensei com os meus botões: será que eu quero um peito bolha, levantado, grandão? De curiosa, fui provar. Meus seios foram para o pescoço, a blusa virou baby look e eu já nem sabia mais o meu nome. Aquela ali no provador não era eu, com certeza. A Pati ficou arrasada, eu acho. Nem me deu tchau. Sai da loja sem pijama, voltando ao normal.
                              Como é que se vive com tanta naturalidade esse “parece, mas não é”? Parece que tenho, mas não tenho. Parece que sou, mas não sou. Parece que sei, mas não sei. Que gosto, mas não gosto. Que compreendo, mas não. Parecia que a Pati era minha íntima, mas não era. O mundo do “parece” nos tira a naturalidade. Confunde o real. A Pati precisava sair da bolha e vender pijamas para mim. Eu até entendi. Era dia dos namorados, momento perfeito para vender um  soutien “parece que tenho um peitão”.
Bem, na próxima eu compro o que desejo. É dura a vida de cliente.

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