Os estereótipos que Woody Allan constrói no filme Para Roma com Amor foram escolhidos a dedo. Nessa semana eu mesma presenciei no aeroporto em São Paulo a tietagem de duas mulheres adultas insistindo com uma atriz para tirar fotos e dar um autógrafo. Como não estou por dentro do repertório global, fiquei boiando. A minha curiosidade, no entanto, me passou uma rasteira e logo fui perguntar para as fãs quem era a dita cuja: Mariana Ximenes, com "X". Por quanto tempo ela dará autógrafos só Deus sabe. O personagem que, da noite para o dia, fica famoso no filme de Woody Allan, interpretado por Roberto Benigni ( A Vida é Bela) é a representação máxima da mediocridade da imprensa que corre atrás dos famosos. A cada suspiro uma reportagem de duas páginas.
Ficar famoso, aliás, é a esperança que muitos pais frustrados colocam em seus filhos. Ter um membro da família que seja reconhecido na rua é o sonho de consumo de muita gente. Para mim, que gritava e sapateava no cinema Guarani, em Porto Alegre, assistindo Help, dos Beatles, é na adolescência que a gente se apaixona pela fama dos outros. Depois dessa fase, a gente tem mais é que apoiar o anonimato e tirar do palco uma quantidade enorme de gente ( lideranças, colegas de trabalho, crianças adultas, pais infantis) que não têm nem mesmo condições de estar nos camarins.
Concordo que esse conceito de celebridade do Woody Allen talvez seja um retrato da imprensa sensacionalista, mais especifcamente dos veículos que vivem da construção da fama através de factóides como "ele escova os dentes assim", "ele come pão com margarina". Um segundo retrato que o Woody Allen faz da celebrização é através do tenor que o personagem "cool hunter" dele descobre. Nesse caso, as engrenagens são outras. Não são as pessoas que fazem a fama, nem nenhum veículo midático. É o curador que diz o que pode ter valor para o público ao afirmar que o senhor que canta no chuveiro é um potencial artista. O personagem do Woody é o contraponto da imprensa sensacionalista. É como se o diretor quisesse extrair dessa dicotomia alguma verdade: o que tem mais valor para o público, o sistema da arte (o sistema do curador e do artista) ou o sistema capitalista (o da imprensa que vende notícias)? Uma terceira leitura possível do conceito de fama que o Woody Allen traz nesse filme é o mundo-reality-show: a ideia de que todos nós, aqui no Facebook, no seu blog ou ao sair na rua, estamos expostos - intencionalmente - à opinião de um público. Todos nós estamos sujeitos à fama. Só que amanhã é outro blog que tem audiência, é outro trendtopic que bomba no Twitter, outro meme que se compartilha, outro "Goleiro Bruno", outro "Casal Nardoni", outro "Caso Yoki"...
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